
Não sou acostumada com monotonia. Nunca fui. Lembro que desde a época de escola quando alguma coisa começava a se tornar repetitiva demais eu já reclamava. Era sempre o mesmo cheeseburguer, sempre a mesma Coca e sempre o mesmo Chokito na hora do lanche. Eram sempre as mesmas pessoas na lotação de volta pra casa. Sempre os mesmos papos... e eu, no auge dos meus grandiosos 16 anos, pensando que um dia tudo isso mudaria. Pensava que, quando eu crescesse, não iria ter a obrigação de suportar as mesmas pessoas todo santo dia, nem os mesmos papos chatos, nem nada de coisas que fossem tão repetitivas.
Terminar logo o colégio era a minha salvação pra me livrar de tudo aquilo. Eu tinha só 16 anos, pros 18 ainda faltavam 2, e eu achava que tinha muito o que estudar/namorar/passear até ter idade suficiente para arrumar um emprego de gente grande.
Agora, com 21, mesmo não tendo o salário de gente grande que eu prentendia, tenho um emprego que me mostra todos os dias o quanto eu cresci e amadureci. Não tem cheeseburguer na cantina, mal me sobra dinheiro no final do mês pra sequer comprar um Chokito, as pessoas mudaram, e eu que reclamava tanto por ter que aguentar as mesmas caras no colégio, hoje não sei o que fazer quando tenho que pegar o tal do 160, todos os dias, sempre às 9:40.
Acho estranha essa situação de conhecer as pessoas, mas não saber o nome delas. Saber o tipo de roupa que elas gostam de usar, e nem sequer saber onde elas trabalham. Sentar ao lado delas e nem dar bom dia mesmo que elas não sejam pessoas estranhas.
Por acordar atrasada quase todos os dias acabei trocando o 160 pelo 825. Achei chato. Além de me cobrarem R$1,00 a mais não tem as pessoas que eu conheço. Após uns meses sem o 160 na minha vida, e com uns reais a menos no bolso, consegui ajeitar meu horário. Quando consegui pegá-lo novamente, achei engraçado que, assim que entrei no ônibus, o rapaz da mochila vermelha olhou pra mim e deu um sorriso como se dissesse "ei, você ainda pega esse ônibus".Ele não sabe meu nome, eu não sei o dele, muito menos o da moça que sempre senta na frente dele, mas é estranho e feliz ao mesmo tempo saber que as pessoas parecem sentir a sua falta sem nem ao menos te conhecerem.
No metrô também sempre foi assim. 17:20 e as mesmas pessoas esperando o mesmo vagão de todos os dias. Há muito tempo não via o senhor da mochila preta que sempre desce atrasado na estação dele, nem a moça que parece irmã de uma amiga minha, nem o menino que tem cara de inteligente e que eu sempre tenho a impressão de que ele deve ser meu concorrente no vestibular.
Na quarta o senhor estava lá e me olhou com uma cara de quem não me via há muito tempo. Quando sentei e olhei pra fora, vi o menino com cara de inteligente e, antes que eu fosse embora, ele olhou pra mim e sorriu.
E, mesmo não conhecendo essas pessoas, nem sabendo o nome delas, tenho achado uma graça que a vida seja realmente tão estranha a ponto de nos permitir fazer diferença na vida de quem a gente menos imagina.